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É estranho! Meio cinza. Hoje o dia nasceu sem poesia, pq a partida se antecipou ao sol. Amanhã será o último adeus. A certeza, a ficha caída, o estado permanente. Como lidar com isso? A impossibilidade da escolha da presença, a partida. Ligação de sangue, elo que transcende o corpo. Amanhã a sete palmos!

Me diz como entender isso? Me diz como não me abalar com tantas dores solitárias. Me diz alguma coisa que faça mais sentido que essa ausência. Me diz antes que o amanhã não aconteça! Diz porque eu cansei desse silêncio.

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Travessia

Existia uma ponte que ligava este lado com um outro lado.
Antes para que se chegasse do lado de lá bastaria somente atravessar.
Dessa ponte já não se sabe mais, mas o outro lado ainda se vê de cá!
Como se faz essa travessia?!

Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio

“Estou deitado na margem. Dois barcos, presos a um tronco de salgueiro cortado em remotos tempos, oscilam ao jeito do vento, não da corrente, que é macia, vagarosa, quase invisível. A paisagem em frente, conheço-a. Por uma aberta entre as árvores, vejo as terras lisas da lezíria, ao fundo uma franja de vegetação verde-escura, e depois, inevitavelmente, o céu onde bóiam nuvens que só não são brancas porque a tarde chega ao fim e há o tom de pérola que é o dia que se extingue. Entretanto, o rio corre. (…)
Três metros acima da minha cabeça estão presos nos ramos rolos de palha, canalhas de milho, aglomerados de lodo seco. São os vestígios da cheia. À esquerda, na outra margem, alinham-se os freixos que, a esta distância, por obra do vento que Ihes estremece as folhas numa vibração interminável, me fazem lembrar o interior de uma colméia. (…)
Entretanto, enquanto vou pensando, o rio continua a passar, em silêncio. Vem agora no vento, da aldeia que não está longe, um lamentoso toque de sinos: alguém morreu, sei quem foi, mas de que serve dizê-Io? Muito alto, duas garças brancas (ou talvez não sejam garças, não importa) desenham um bailado sem princípio nem fim: vieram inscrever-se no meu tempo, irão depois continuar o seu, sem mim.
Olho agora o rio que conheço tão bem. A cor das águas, a maneira como escorregam ao longo das margens, as espadanas3 verdes, as plataformas de limos onde encontram chão as rãs, onde as libélulas (também chamadas tira-olhos) pousam a extremidade das pequenas garras – este rio é qualquer coisa que me corre no sangue, a que estou preso desde sempre e para sempre. Naveguei nele, aprendi nele a nadar, conheço-lhe os fundões e as locas onde os barbos pairam imóveis. É mais do que um rio, é talvez um segredo.
E, contudo, estas águas já não são as minhas águas. O tempo flui nelas, arrasta-as e vai arrastando na corrente líquida, devagar, à velocidade (aqui, na terra) de sessenta segundos por minuto. Quantos minutos passaram já desde que me deitei na margem, sobre o feno seco e doirado? Quantos metros andou aquele tronco apodrecido que flutua? O sino ainda toca, a tarde teve agora um arrepio, as garças onde estão? Devagar, levanto-me, sacudo as palhas agarradas à roupa, calço-me. Apanho uma pedra, um seixo redondo e denso, lanço-o pelo ar, num gesto do passado. Cai no meio do rio, mergulha (não vejo, mas sei), atravessa as águas opacas, assenta no lodo do fundo, enterra-se um pouco. (…)
Desço até à água, mergulho nela as mãos, e não as reconheço. Vêm-me da memória outras mãos mergulhadas noutro rio. As minhas mãos de há trinta anos, o rio antigo de águas que já se perderam no mar. Vejo passar o tempo. Tem a cor da água e vai carregado de detritos, de pétalas arrancadas de flores, de um toque vagaroso de sinos. Então uma ave cor de fogo passa como um relâmpago. O sino cala-se. E eu sacudo as mãos molhadas de tempo, levando-as até aos olhos – as minhas mãos de hoje, com que prendo a vida e a verdade desta hora.”

SARAMAGO, José. Deste mundo e do outro.

feitos de sonhos

quarto escuro
respiração profunda
uma luz, que parte revela,
faz da outra toda mistério

Por quais universos posso te encontar?

deito-me a teu lado, fecho meus olhos
pronta pra navegar…
embarco nessa viagem,
Me espera que eu chego já!

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Já faz tempo que não te escrevo. Esse mesmo tempo insiste em passar, as angústias se tornaram brandas, sol e lua jogando como numa brincadeira de criança. Essa constante mudança que invade os pequenos cômodos, às vezes deixa um silêncio. Ecos de pensamentos sem resposta, sem retorno… Pois é! Nem tudo tem volta e se o novo sempre vem porque permanecer sendo o mesmo?

Vejo que a mudança reside em ti também, de partes tuas não sei mais e em partes talvez nem você saiba. Talvez meu presente fosse teu passado te aprisionando num ser que já não mais queria, não mais podia ser. Essa impossibilidade era do desejo pelo novo, a mudança necessária. Pode ser que a gente precise que as coisas mudem antes de nós, pra que haja o impulso, a força que em horas falta.

Talvez a saudade seja a única constante.

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Num pequeno pedaço de papel escrevi algo que pudesse me indicar o rumo da tua nova casa. Tinha ainda a esperança de te encontrar numa próxima esquina, mas acho que dessa vez, parte minha é que foi embora. Na verdade, parte de cada um de nós todos os dias se vão e nos recriamos com o que fica.

Partes se vão, outra fica
Uma única peça, um único ser
Ser essência é ser o todo.

Te escrevo sabendo que é você que pode me encontrar.

.tome nota!

Precisamos estar livres primeiro pra chegar mais perto do que somos.
depois existirá uma maneira da intenção virar coisa da vida real.
Se não exatamente aquilo, algo no caminho do ser inteiro.

Que flua o sonho, adaptações sempre ocorrerão!

?/2010